Bússola dos Tempos・267
Bússola dos Tempos・267
Superar os limites
Keiko Takahashi
O princípio da economia de esforço
Em junho, será realizado o Encontro Utsushimi, em memória da passagem do Fundador, Shinji Takahashi Sensei, para o mundo espiritual.
O Encontro Utsushimi é uma ocasião para confirmar que somos seres que vivem no mundo fenomênico revestidos de um corpo físico e, ao mesmo tempo, aprofundar nossa gratidão ao Mestre Fundador que abriu o caminho do Princípio Divino. Shinji Takahashi Sensei transmitiu ao mundo, acima de tudo, que o ser humano é uma existência espiritual de vida eterna. Seu ensinamento continua a ressoar no cerne de nossas vidas até hoje.
Pode-se dizer que essa jornada consiste em deslocar, pouco a pouco, o foco central da vida do corpo para a mente, e da mente para a alma1.
Nos estágios iniciais da vida, todos partimos de uma forma de viver fortemente condicionada pelo corpo físico. O desenvolvimento das funções da mente, em seu início, inclina-se, também, para os critérios do prazer e do sofrimento, que pertencem às sensações do corpo. Contudo, a partir daí, aprendemos a cultivar uma mente capaz de acolher as situações sem reagir de forma instintiva aos estímulos do prazer e do sofrimento e, gradualmente, despertamos a sensibilidade da alma, que responde aos chamados2 que os transcendem. Podemos dizer que isso também é um dos caminhos que compõem a nossa jornada de vida.
Mas há algo que precisamos considerar aqui. Trata-se do fato de que o cérebro humano opera segundo um princípio de máxima economia de esforço.
Tudo aquilo que for possível economizar esforço, será alvo dessa economia. Uma vez que aprendemos a realizar algo com um menor gasto de energia, deixamos de empregar mais energia do que o necessário. Como resultado, na vida, tudo acaba se transformando em hábito e passa a ser objeto desse processo de economia de esforço.
Há uma força que emerge dos limites
Entretanto, basta refletirmos um pouco para perceber que o propósito da nossa vida não é a economia de esforço.
Se nos perguntarmos por que buscamos poupar esforço, a resposta é: para direcionar a energia àquilo que realmente devemos nos dedicar. A economia de esforço é apenas um passo para fazer a vida evoluir em sua essência.
E não apenas isso. Precisamos considerar ainda que a própria economia de esforço talvez esteja impedindo que as possibilidades, que outrora deveriam vir à tona naturalmente, possam florescer.
Isso porque só conseguimos alcançar uma nova dimensão quando levamos algo até o seu limite. Quando empregamos todas as nossas forças até chegar ao ponto de dizer “já não consigo ir além”, conseguimos fazer surgir possibilidades que até então não haviam se manifestado. Ao invés de nos inclinarmos desde o início para a economia de esforço, é quando damos tudo o que está ao nosso alcance que uma nova força nos é concedida. É justamente por nos aproximarmos dos nossos limites que uma nova porta se abre.
O chamado “segundo fôlego” talvez seja uma das manifestações disso. O termo se refere a um estado de respiração estável e eficiente que surge durante a atividade física, após a superação de uma fase temporária de esforço intenso ou fadiga. Contudo, esse estado pode ocorrer não apenas nos esportes, mas também em atividades mentais e em atividades de natureza mais complexa.
Assim como uma molécula que acumula energia e entra em um estado de excitação passa a desencadear uma nova reação química, também no ser humano surge a força que lhe permite dar um salto a uma nova dimensão.
É justamente por isso que é importante seguir em frente até onde pudermos. Esforçar‑se até chegar ao ponto de pensar: “daqui não consigo ir mais além”. É nesse momento que passamos a conhecer um novo aspecto de nós mesmos que até então desconhecíamos, e nos tornamos capazes de despertar possibilidades que permaneciam adormecidas.
O desafio de “fazer algo pela primeira vez”
O simples fato de nos dedicarmos a algo que nunca fizemos antes já representa, por si só, um desafio aos nossos próprios limites.
Afastar‑se do modo de viver e de agir que temos repetido ao longo do tempo é sempre um passo para confrontar os próprios limites.
Novos relacionamentos, novo trabalho, novos métodos no exercício da profissão. Enfrentar uma realidade diferente daquela a que estamos acostumados e aceitar o desafio de “fazer algo pela primeira vez”, pode ser o gatilho para trazer à tona forças que ainda desconhecemos em nós mesmos.
Naturalmente, ao “fazer algo pela primeira vez” sentiremos inseguros. E é possível nos depararmos com fracassos e dificuldades.
Ainda assim, gostaria que acreditassem que esse desafio pode despertar possibilidades que até então permaneciam ocultas. É com essa convicção que gsotaria que avançassem em direção a uma nova forma de viver.
Notas do editor:
1. Alma (energia da vontade dotada de sabedoria)
A alma, em poucas palavras, é o centro que faz do ser humano verdadeiramente humano, a sua essência. É também a fonte de energia que abriga tanto a luz quanto a sombra. Tenho chamado essa alma de “energia da vontade dotada de sabedoria”. Trata-se de uma existência que continua viva mesmo após a morte do corpo físico e que, ao longo do tempo, vivenciou inúmeras experiências de vida, sendo o verdadeiro sujeito dessas jornadas.
(Extraído de p.23-24 do livro Reconquistando a Própria Vida, original em japonês)
2. Chamado
Cada encontro ou acontecimento não nos ocorre “por acaso ou acidentalmente”. Eles chegam até nós por necessidade, por algum motivo e possuem um significado. Quando evocamos essa sensibilidade da alma e colocamos o centro de gravidade na alma, somos capazes de aceitar até mesmo situações aparentemente negativas, questionando: “Qual é o chamado que este encontro ou este acontecimento está me oferecendo?” E assim, conseguimos dar um passo de um novo modo de vida indagando: “Qual seria a minha transformação necessária?” (Extraído de p.47-49 do livro Reconquistando a Própria Vida, original em japonês)